home Bloco-notas
Portuguese blogspotting
logotipo


links em nova janela



4.5.03

O outrosismo



A besta voltou. O nome mete medo: chama-s e «sóacontec'aosoutros». É o outrosismo.
Deixem que vos conte a história.
Não o via há três anos. É uma daquelas pessoas a quem atiramos pronomes _ o meu melhor, um dos meus melhores amigos _, embora a vida teime em nos atirar para direcções opostas. Nos encontros irregulares, ditados por vontade irreprimível ou pelo acaso das circunstâncias, somos efusivos nos abraços e desfiamos episódios do passado. Coisas simples: as noites loucas em casa do Jorge, uma volta à Europa de boleia ou os fins-de-semana na casa velha a ver o mar. Coisas boas chamadas vida, que tivemos a sorte de conhecer (sorte, sim).
Telefonou-me, a voz sombria e uma urgência escondida. Forcei o encontro. O que seria? Na vez anterior estava em forma. Falara-se da sua vida, director-geral daquela grande empresa, as namoradas da moda e as fotografias do social. Com evidente prazer desfiara nomes de gente conhecida que tratava por tu, deixara cair lugares, sucessos... Quando desta vez o vi, a alma amarrotada a assumar-lhe aos olhos, soube que mudara. Impecável e sem vincos, a roupa tinha um ar cansado. Encomendámos o jantar e logo ele declarou, solene, que as coisas iam mal. E prosseguiu, sem deixar cair a surpresa:
«Fiquei desempregado há três anos, pouco depois do nosso último encontro. O patrão ofereceu-me um adjunto, primo da mulher. Que remédio tive senão aceitar. Ao fim de um mês estava montado o inferno. Eu fiz a católica com o patrão, por isso decidi pôr as coisas a limpo: ou ele ou eu. Vim para a rua. Com o dinheiro que recebi, achei por bem parar uns tempos. Namorava a Vera, lembras-te dela? (não me lembrava), íamos casar, assentar finalmente. E viajámos. Gastei milhares de contos, foram óptimos tempos. Estava convencido que mal estalasse os dedos meio Portugal me daria emprego.»
Falava sem tréguas, o risotto a arrefecer no prato. Eram ásperas, as palavras do meu amigo. Lembravam-me diálogos dos clássicos, Eça, Balzac (ou seria Flaubert?), imagens diferentes das vidas de plástico descritas pelos escritores pop do século XXI português.
«Quando dei por mim acabara-se o dinheiro. E não arranjei nada. Estou desempregado há dois anos. A Vera fugiu. Os amigos de outrora, meus pares, só atendem o telefone uma vez _ a primeira. Telefona para a semana, dizem, e somem-se para sempre num mundo onde reinam secretárias de guarda e em que há reuniões contínuas. Estou desesperado. Tens de me ajudar.»
É isto. Acabaram-se as festas e os fins-de-semana prolongados. O meu amigo multiplicou-se: são cada vez mais os que perdem o emprego, esperam notícias, aqueles a quem ninguém atende o telefone. Guiavam topo de gama, deslocam- -se no utilitário das mulheres. Eram importantes, são zés-ninguéns. Tinham estatuto, estão nus perante a sociedade.
Volto para casa. Agarro-me ao que tenho, como um avarento. Do meu sofá, vejo os miúdos a brincar. E penso no meu amigo. Felizmente, só acontece aos outros!

psande@mail.telepac.pt
DN, 03.05.03

19:16


2.5.03

Rebolar de olhos fechados


ANTÓNIO RIBEIRO FERREIRA, Director adjunto DN

Umas «bombas» compradas sem receita numa farmácia voltaram a pôr-me como novo. E como o meu regresso a Lisboa não é para já _ mas voltarei para ler e ouvir de novo os derrotados desta guerra do Iraque _, lá andei por Fallujah a ver o triste espectáculo de manipuladores políticos de quarta classe, escondidos atrás da religião e das saudades de Saddam. Uma mistura explosiva que matou 20 pessoas.
Bem, deixemos as coisas tristes. Disse-me o satélite que os pacifistas andam azedos, sem sentido de humor, amarelos de raiva por terem perdido em toda a linha.
Aqui vai um conselho. Como as manifestações contra a guerra já deram o que tinham a dar, venham até Bagdad. Todos os dias, uns tantos profissionais gritam que se fartam contra Bush em frente do Hotel Palestina. E recebem uns dólares pelo sacrifício. Férias pagas no Iraque é um luxo para poucos.
Quem é amigo, quem é? E não se preocupem com o caos no trânsito e a falta de segurança. Podiam perfeitamente rebolar do local da manifestação até ao átrio do hotel.
De olhos fechados, para não verem os soldados norte-americanos

DN de hoje

19:03


29.4.03

Vai um cafezinho?



Mas afinal, o que raio será preciso para aparecer nos blogues da moda? Hem? Num daqueles com pinta, género Coluna Infame, ou Gato Fedorento, ou ainda, vá lá, sejamos modestos, Os Marretas.
Hmmm? Hem, filhos, dizei. Aqui o Bloco-notas rói-se de inveja. Será do nome? Talvez se mudar para uma coisa mais levezinha, tipo Blogue Filho da Puta, ou com seu toque politicamente incorrecto, vejamos, talvez Foda-ce Blog. É frustrante à brava a gente fartar-se de escrever, de preferência sem grandes erros de Português, e depois vai-se a ver e ninguém toma conhecimento, o contador não avança, o cabrão, qualquer dia tiro daqui aquela merda.
Para os maçaricos e outros inexperientes em geral, até ameaço que estou a pensar em lançar aqui um manual de iniciação ao bloguismo. E avanço já com a primeira regra: bem podem fabricar a maior cagada que for possível, e esmerarem-se no discurso laudatório, bajulatório e mictórico; isso não interessa nada; por mais que se esmifrem, o "sucesso" na blogosfera mede-se apenas por três índices: o de audiências, o de referências e o de outras coisas acabadas em ências, como parvoices ou alarvidades. E estes índices dependem em exclusivo do número, tipo e qualidade dos amigos. Uma simples referência no "Expresso" é sucesso garantido. Os bloguistas militantes constituem um círculo fechado (os tais "amigos" uns dos outros), trocam os respectivos endereços, sempre os mesmos, como se fossem cromos, e pronto. Pimba. Ecce blogae.
Mas enfim, note-se que usei a lusitaníssima expressão "estou a pensar em". Logo, não vou fazer nada disso. Bem entendido.
E, de resto, o manual resume-se àquilo mesmo.

14:40



Bloco-notas Web

powered by FreeFind



cxmail@iol.pt